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Saturday, February 15, 2014

Entrevista de Edward Snowden pelo canal alemão de TV, NDR, de 26.01.2014









Esta entrevista televisiva feita em Moscovo é a segunda do género, depois da que foi conduzida pelos jornalistas Glenn Greenwald e Laura Poitras em Hong Kong em Junho de 2013.

(Crédito da foto NDR News Germany) – Televisão Alemã, domingo à noite em directo, entrevista com o americano Edward Snowden, que revelou publicamente e retransmitiu largamente para o estrangeiro as particularidades dos programas de vigilância operados pela NSA.

Torna-se cada vez mais evidente que essas revelações não provocaram qualquer dano; de facto, elas foram bem úteis ao grande público.



Hubert Seipel (Seipel) : Senhor Snowden, tem dormido bem estas últimas noites ? Porque li que pediu uma protecção policial, de algum modo. Existem ameaças?

Edward Snowden  (E. Snowden) : Existem ameaças significativas, mas durmo muito bem. Houve um artigo publicado num jornal online chamado Buzz Feed, onde eles entrevistavam autoridades do Pentágono e da Agência Nacional de Segurança (NSA), concedendo-lhes o anonimato para que eles pudessem dizer o que queriam, e o que eles disseram ao jornalista repórter foi que me queriam assassinar. Esses indivíduos – e são funcionários do governo em funções - diziam que ficariam felizes, que adorariam meter-me uma bala na cabeça, envenenar-me no regresso de uma ida às compras na mercearia e ver-me morrer no meu chuveiro.


SEIPEL : Mas felizmente continua vivo, entre nós.

E. Snowden: Apenas estou ainda com vida, e não deixo de dormir porque fiz o que sentia dever fazer. Era a acção certa a fazer e não me deixarei intimidar pelo medo.


Seipel : “O maior receio que tenho”, e estou a citá-lo, “no que respeita às divulgações, é que nada mude”. Era uma das suas maiores preocupações nessa altura, mas entretanto houve uma viva discussão relativamente à situação da NSA; não apenas na América mas também na Alemanha e no Brasil, e o Presidente Obama foi forçado a dirigir-se ao público e de justificar o que fazia a NSA sobre bases legais.

E. Snowden : Aquilo a que inicialmente assistimos como resposta às revelações foi uma espécie de cerco de carrinhos de protecção, implementado pelo governo relativamente à Agência de Segurança Nacional. Em vez de conduzir a agência formando um cerco protector à volta do público para proteger os seus direitos, a classe política concentrou-se à volta do estado em segurança para proteger os seus próprios direitos. O que é interessante é que, embora tenha sido essa a primeira reacção, vimos que ela foi depois suavizada. Vimos que o Presidente o reconheceu quando, depois de ter afirmado “fizemos o que era adequado, não houve abusos”, pudemos ver, a ele e aos seus colaboradores admitir que houve abusos. A cada ano há milhares de violações deste género, da parte da Agência de Segurança Nacional e de outras agências, bem como por parte das autoridades.


Seipel : Será que o discurso de Obama marca o início de uma regulamentação séria?

E. Snowden : Era claro, pela leitura do discurso do Presidente, que ele queria fazer pequenas mudanças para preservar serviços de que não precisamos. O Presidente criou uma comissão de vigilância constituída por agentes que eram seus amigos pessoais, veteranos da segurança nacional, de um antigo Director adjunto da CIA, de pessoas que tinham todo o interesse em fazer as coisas suavemente nesses programas e a considerá-los de modo favorável. Mas o que descobriram é que tais programas não tinham qualquer valor, que nunca impediram um ataque terrorista nos Estados Unidos, e que não tinham tido mais que uma utilidade marginal em outros domínios. A única coisa que o programa de mega dados telefónicos da secção 215 fornece é, de facto, um programa mais vasto de colecta bruta de mega dados – uma colecta bruta significa uma vigilância em massa – mas que revelou não impedir ou não detectar transferências electrónicas de 8500 $ da parte de um motorista de táxi da Califórnia. É este género de vigilância efectuada pelos operadores que faz que não precisemos desses programas, já que eles não contribuem para a nossa segurança.

Eles mobilizam enormes recursos para funcionar e não nos trazem nada de válido. Os funcionários prosseguem dizendo “podemos modificá-los”. A Agência de Segurança Nacional age unicamente sob a autoridade efectiva do Presidente. Portanto, ele pode parar ou modificar, ou provocar uma mudança das suas políticas a qualquer momento.


Seipel : Pela primeira vez, o Presidente Obama admitiu que a NSA recolhia e armazenava milhares de milhões de dados.

E. Snowden: De cada vez que se telefona, que se marca um número, que se escreve um mail, que se faz uma compra on-line, que se apanha um autocarro levando um telemóvel, que se introduz um cartão algures, deixa-se um rasto, e o governo decidiu que era uma boa ideia recolher todos esses rastos, todos, mesmo sobre quem nunca foi suspeito de um crime. Tradicionalmente o governo identificaria um suspeito, iria ter com um juiz, dir-lhe-ia que suspeitava que esse indivíduo tivesse cometido um crime, obteria um mandato e poderia assim utilizar todos os seus poderes para prosseguir a pesquisa. Actualmente, o que vemos é que eles querem utilizar a totalidade dos seus poderes antecipadamente – antes de qualquer pesquisa.


Seipel : Você lançou este debate, e Edward Snowden tornou-se entretanto um ícone para o denunciante da era da internet. Trabalhou até ao Verão passado para a NSA e, durante esse tempo, recolheu secretamente milhares de documentos confidenciais. Houve algum momento decisivo ou levou muito tempo para que o assunto amadurecesse, ou alguma coisa aconteceu, o que é que o levou a tomar a decisão?

E. Snowden : Diria que uma espécie de momento decisivo foi aquele em que vi o Director da NSA, James Clapper, mentir ao Congresso sob juramento. Não é possível salvar uma comunidade dos serviços de informação acreditando que ela pode mentir ao público e aos legisladores, que precisam de confiar nela e legislar sobre os seus processos. Assistir a isso significava realmente para mim que não havia possibilidade de voltar atrás. Para além disso, houve a lenta tomada de consciência de que mais ninguém o faria. O público tinha o direito de conhecer a existência desses programas. Tinha o direito de saber o que o governo fazia em seu nome, e o que fazia contra o público, mas nós não estávamos autorizados a discutir sobre isso, não tínhamos autorização para nada; nem mesmo o corpo alargado dos nossos representantes eleitos podia conhecer ou discutir sobre esses programas, o que é algo de perigoso. A única supervisão de que dispúnhamos era um tribunal secreto, o Tribunal FISA, que é uma espécie de escritório, o selo da autoridade.
Quando se está no interior do sistema, se vai trabalhar todos os dias, sentando-se no escritório e dando-se conta do poder que se detém – pode-se ouvir o Presidente dos Estados Unidos, ouvir o juiz federal, mas fazendo-o discretamente nunca ninguém o saberá, porque a única maneira pela qual a NSA pode descobrir abusos é controlando-se a si própria.


Seipel : Não falamos da NSA apenas nesse domínio; existe um acordo multilateral de cooperação entre os serviços, e essa aliança sobre as operações de informação é conhecida pelo nome de Cinco Olhos (Five Eyes). Quais são as agências e países que fazem parte dessa aliança e qual é o seu objectivo?

E. Snowden : A aliança dos Cinco Olhos é uma espécie de resquício do pós Segunda Guerra Mundial, em que os países anglófonos são as principais potências a aliar-se para, de algum modo, cooperar e partilhar os custos da infraestrutura para recolha da informação.
Temos portanto o GCHQ britânico (Government Communications HeadQuarter, NT), temos a NSA americana, o C-Sec canadiano, o Australian Signals Intelligence Directorate e o DSD neo-zelandês. O resultado foi, durante décadas e décadas, uma espécie de organização supranacional da informação que nem sequer obedecia às leis dos seus próprios países.


Seipel : Em numerosos países, como também na América, as agências como a NSA não estão autorizadas a fazer espionagem no interior das suas próprias fronteiras e da sua população. Portanto, os Britânicos, por exemplo, podem espiar todo o mundo excepto os Britânicos, mas a NSA pode fazer vigilâncias na Inglaterra, e assim, finalmente, eles poderiam trocar os seus dados e estariam em conformidade com a lei.

E. Snowden : Se puserem a questão directamente aos governos, eles negarão e farão referência aos acordos políticos entre os membros dos Cinco Olhos estipulando que eles não espiariam os cidadãos dos outros países membros, mas existem alguns pontos-chave. O primeiro é que eles não consideram como espionagem a recolha de informações. O GCHQ recolhe uma enorme quantidade de dados e de informações sobre os cidadãos britânicos, tal como faz a NSA para os cidadãos americanos. O que eles dizem é que não tomarão como alvo as pessoas mencionadas nesses dados. Não procurarão cidadãos do Reino Unido ou britânicos. Além disso, os acordos políticos concluídos entre eles dizem que os Britânicos não terão como alvo os cidadãos americanos, que os Americanos não apontarão para os cidadãos britânicos, não os vinculando juridicamente. As actuais notas de serviço dos acordos estipulam muito particularmente que eles não visam emitir restrições legais a qualquer governo. Há acordos que podem ser modificados ou quebrados a qualquer momento. Portanto, se eles têm dados de um cidadão britânico, eles podem espiá-lo e podem mesmo partilhar esses dados com o governo britânico, a quem é proibido espiar os cidadãos britânicos. Portanto, há uma espécie de dinâmica negociada mas não declarada; tudo isso se faz secretamente e além disso, o essencial é lembrar-se que a vigilância e o abuso não se produzem quando as pessoas exploram os dados, mas quando elas são as primeiras a explorá-los.


Seipel : Qual é o grau de cooperação entre o Serviço Secreto Alemão BND (Bundesnachrichtendienst, NT), a NSA e os Cinco Olhos?

E. Snowden:  Eu qualificá-lo-ia como íntimo. De facto, a primeira maneira como eu o descrevi na nossa entrevista escrita era que os serviços alemães e americanos dormem juntos. Eles partilham não apenas informações, relatórios de investigação, resultados da informação, mas de facto partilham ferramentas e a infraestrutura, e trabalham em conjunto contra os alvos comuns aos serviços, o que envolve muito perigo. Um dos principais programas que é fonte de abusos na Agência de Segurança Nacional é chamado “XKeyscore”. É um motor de busca frontal que lhes permite fazer pesquisas transversais de todas as gravações que recolhem cada dia a nível mundial.


Seipel : O que poderia fazer com esse tipo de ferramenta se estivesse, por assim dizer, no lugar deles?

E. Snowden : Poderia ler os mails de qualquer um no mundo inteiro. Todos aqueles de quem se tiver o endereço electrónico, qualquer site em que se possa observar o tráfego de entrada e saída, qualquer computador diante do qual está sentado um utilizador pode ser observado, qualquer computador portátil que se tenha como alvo pode ser seguido nas suas deslocações através do mundo. É um armazém único de acesso à informação da NSA. E além disso podem-se marcar os utilizadores como “XKeyscore”. Digamos que vi o senhor uma vez e disse a mim próprio que o que você fazia era interessante, ou que tinha acesso a coisas que me interessam, admitamos que você trabalha para uma grande empresa alemã e que eu quero aceder a essa rede: eu posso seguir o seu nome de utilizador num site web, em qualquer formulário, posso seguir o seu verdadeiro nome, posso seguir as associações com os seus amigos e posso construir os laços do que se chama uma impressão digital, que representa a actividade ou rede que lhe é própria, o que significa que, onde quer que vá pelo mundo, onde quer que tente dissimular a sua presença na rede ou a sua identidade, a NSA pode encontrá-lo, e todos aqueles que estão autorizados a utilizar ou com quem a NSA partilha o software podem fazer o mesmo. A Alemanha é um dos países que tem acesso a “XKeyscore”.


Seipel : Isso parece bastante assustador. A pergunta é: o BND entrega dados sobre alemães à NSA?

E. Snowden: Que o BND o faça directamente ou em conhecimento de causa, a NSA recebe dados alemães. Se isso se faz, eu não posso falar do assunto antes que seja publicado, porque isso seria classificado e eu prefiro que os jornalistas façam a triagem e tomem as decisões sobre o que interessa o público e o que deveria ser publicado. Contudo, não é segredo que cada país do mundo tem os dados dos seus cidadãos armazenados na NSA. Milhões e milhões de conexões de dados de alemães tratando dos seus afazeres diários, falando pelos seus telemóveis, enviando SMS, visitando sites de internet, fazendo compras on-line, tudo isso acaba por chegar à NSA e é provável que o BND esteja ao corrente numa certa medida. Mas eu não saberia dizer se eles fornecem ou não activamente essas informações.


Seipel : O BND explica que se o fazemos, fazemo-lo acidentalmente e que a nossa filtragem não funciona.

E. Snowden : Bem, o género de coisas que eles discutem é de duas ordens. Eles falam de filtrar a admissão de dados, o que significa que a NSA instala um servidor secreto num local de um fornecedor alemão de acesso a telecomunicações, ou então que pirateia um router alemão, desviando o tráfego de modo a poderem fazer pesquisas; eles dizem: “se eu vejo o que creio ser um alemão a falar com outro alemão, eu largo o assunto”; mas como saber? Vocês poderiam dizer “bem, estas pessoas falam em língua alemã”, “este endereço IP parece ser o de uma sociedade alemã a comunicar com outra sociedade alemã”, mas isto é pouco exacto e eles não deixariam todo esse tráfego, porque identificaram alvos interessantes, que estão activos na Alemanha e utilizam as comunicações alemãs. Portanto, de modo realista, quando eles dizem que não há espionagem dos alemães, não querem dizer que os dados alemães não são recolhidos, nem querem dizer que não são feitas ou roubadas gravações, o que querem dizer é que não vigiam intencionalmente cidadãos alemães. E isso é uma espécie de promessa com os dedos cruzados nas costas, não é fiável.


Seipel : O que se passa com outros países europeus como a Noruega e a Suécia, por exemplo, pois creio que temos uma boa quantidade de cabos submarinos que atravessam o Mar Báltico?

E. Snowden: É uma espécie de alargamento da mesma ideia. Se a NSA não recolhe informações sobre os cidadãos alemães na Alemanha, fá-lo-á imediatamente quando eles passam as fronteiras alemãs? E a resposta é “sim”. Qualquer comunicação que transite por Internet pode ser interceptada pela NSA em múltiplos locais, seja na Alemanha, na Suécia, na Noruega ou Finlândia, na Grã Bretanha ou nos Estados Unidos. Em qualquer local desses países pelos quais passe uma comunicação alemã, esta pode ser ingerida e acrescentada à base de dados.


Seipel : Passemos então aos nossos vizinhos do sul da Europa. Que se passa relativamente à Itália, à França, à Espanha?

E. Snowden: É o mesmo modo de proceder no mundo inteiro.


Seipel : A NSA espia por exemplo Siemens, Mercedes, outras sociedades alemãs de sucesso, para ter a primazia, para ter uma vantagem concorrencial e saber o que se passa no mundo científico e económico?

E. Snowden: Não quero antecipar as decisões editoriais dos jornalistas, mas diria que está fora de dúvida que os Estados Unidos praticam a espionagem económica.
Se houver informação sobre a Siemens, que eles acham que poderia servir os interesses nacionais, não a segurança nacional dos Estados Unidos, eles procurarão essa informação e irão recuperá-la.


Seipel : Existe o velho adágio que diz “vocês fazem o que podem”, portanto a NSA faz tudo o que é tecnicamente possível.

E. Snowden: É algo que o Presidente abordou o ano passado quando disse que não é porque somos capazes de fazer alguma coisa – e era em relação à piratagem do telemóvel de Angela Merkel – não é porque somos capazes que o devemos fazer, mas foi exactamente o que se passou. As capacidades tecnológicas que foram adquiridas devido às fracas normas de segurança dos protocolos de internet e das redes de comunicação móveis tiveram por efeito que os serviços de informação possam criar sistemas que vêem tudo.

Seipel : Nada contrariou mais o governo alemão que o facto de a NSA ter pirateado o telemóvel privado da chanceler alemã Merkel durante os últimos 10 anos; de modo evidente, de repente essa vigilância invisível era relativa a uma personalidade conhecida e já não a uma espécie de vago e obscuro plano terrorista. Agora, Obama prometeu parar a espionagem a Merkel, o que leva à questão: a NSA espiou os governos precedentes, incluindo os chanceleres anteriores, quando é que o fez e há quanto tempo?


E. Snowden : É uma pergunta a que me é particularmente difícil de responder, porque há informações que penso serem de interesse público. Contudo, e como já disse, prefiro deixar os jornalistas tomarem as decisões em primeiro lugar, rever os elementos e decidir se sim ou não o seu valor para o público ultrapassa a espécie de ofensa à reputação daqueles que ordenaram a vigilância. O que posso dizer é que Angela Merkel estava sob a vigilância da Agência de Segurança Nacional. A questão é saber se é razoável pensar que ela seria a única pessoa oficial alemã a ser vigiada, até que ponto é possível acreditar que ela fosse a única personalidade eminente na Alemanha que a Agência de Segurança Nacional vigiava. Eu sugeria que não é razoável para alguém que se preocupasse com as intenções dos dirigentes alemães de apenas vigiar a Senhora Merkel e não os seus colaboradores, outros altos funcionários, os seus ministros ou mesmo os funcionários dos governos regionais.


Seipel : Como é que um jovem de Elizabeth City, na Carolina do Norte, de 30 anos de idade, acede a um tal posto num domínio tão sensível?

E. Snowden: É uma pergunta a que é muito difícil responder. De um modo geral, eu diria que isso torna visíveis os perigos de privatizar as funções governamentais. De facto, eu trabalhava anteriormente como director executivo, enquanto funcionário governamental na Agência Central de Informações (CIA), mas trabalhei com frequência como sub-empreiteiro privado. O que isso significa é que existem sociedades privadas a efectuar um trabalho que é intrinsecamente da responsabilidade do governo, tais como a espionagem a um alvo, a vigilância, a infiltração dos sistemas estrangeiros, e qualquer um que disponha das competências para convencer uma sociedade privada que ele tem as qualificações necessárias, será encarregado pelo governo de o fazer, e há muito pouca supervisão, muito pouco controlo.


Seipel : Você era uma dessas crianças típicas da era informática com os olhos vermelhos à força de passar as noites diante do ecran, na idade de 12 a 15 anos, e com o pai a bater-lhes à porta a dizer “apaga a luz, já é tarde”? Adquiriu as competências informáticas deste modo ou quando é que teve o seu primeiro computador?

E. Snowden: É exacto, eu tive certamente… eu diria uma formação informal mais profunda em informática e tecnologia electrónica. Isso sempre me fascinou e interessou. É correcto dizer que tinha pais que me aconselhavam a ir para a cama.


Seipel : Se virmos os poucos dados publicamente disponíveis sobre a sua vida, descobrimos que, com evidência, queria juntar-se às Forças Especiais, em Maio de 2004, para combater no Iraque; qual era a sua motivação nessa época? Você sabe, as Forças Especiais, se olharmos para si neste momento, significam duros combates e, provavelmente, matar. Você já foi ao Iraque?

E. Snowden : Não, não fui ao Iraque… uma das coisas interessantes a propósito das Forças Especiais é que elas não são destinadas ao combate directo, elas são o que se chama um multiplicador de força. Elas são infiltradas atrás das linhas inimigas, é um grupo que dispõe de um certo número de especialidades diferentes, que forma e dá à população local a capacidade de resistir ou de servir de suporte às forças americanas, de um modo que lhes dá uma possibilidade de ter peso sobre o seu próprio destino, e eu sentia que era uma causa nobre, nessa época. Mais tarde, algumas das razões que nos levaram ao Iraque não tinham bons fundamentos, e penso que prestaram um mau serviço a todos os que nelas estavam implicados.


Seipel : Que se passou então com a sua aventura ? Ficou muito tempo com eles ou que é que lhe aconteceu?

E. Snowden: Não, parti as pernas nos treinos e fui reformado.


Seipel: Então, por outros termos, a aventura não foi longe?

E. Snowden: Foi uma aventura breve.


Seipel : Em 2007 a Cia colocou-o sob protecção diplomática em Génova, na Suíça. A propósito, por que se juntou à CIA?

E. Snowden: Não penso poder responder a essa pergunta em directo.


Seipel : De acordo no que respeita ao que você fez lá, esqueçamos, mas por que se juntou à CIA?

E. Snowden: Em vários aspectos penso que está na continuidade das minhas acções favorecer o interesse público da maneira mais eficaz, e isso está em fase com o resto da minha actividade ao serviço do governo, onde eu procurava utilizar as minhas competências técnicas nos postos mais difíceis que podia encontrar no mundo, e a CIA oferecia-me a oportunidade para isso.


Seipel : Se voltarmos atrás : Forças Especiais, CIA, NSA, isso realmente não se enquadra com o perfil de um activista dos direitos do homem ou de alguém que se torna um denunciador depois de tudo isso.

O que é que lhe aconteceu?

E. Snowden : Eu acho que isso conta uma história e que não tem nada a ver com a profundidade do empenhamento das pessoas no governo, nem com a sua fidelidade ao governo, nem com a força da sua fé nas escolhas do seu governo como foi o meu caso durante a guerra no Iraque; as pessoas podem aprender, podem descobrir o limite entre um comportamento governamental apropriado e os danos reais, e penso que se tornou evidente para mim que esse limite tinha sido ultrapassado.


Seipel : Você trabalhou para a NSA por intermédio de um sub-contratante privado de nome Booze Allen Hamilton, um dos grandes nomes do sector. Qual é o interesse para o governo americano ou para a CIA de sub-contratar com uma sociedade privada a terceirização de uma função central do governo?


E. Snowden : A cultura da sub-contratação da comunidade da segurança nacional nos Estados Unidos é uma questão complicada. O seu motor é um conjunto de interesses abrangendo em primeiro lugar a necessidade de limitar o número de empregados directos do governo e ao mesmo tempo de afastar, dos grupos de lobbying do Congresso, sociedades muito sólidas como Booze Allen Hamilton. O problema é que se chega a uma situação em que as políticas governamentais são influenciadas por sociedades privadas com interesses que nada têm a ver com o interesse público. O resultado é aquele que vimos com Booze Allen Hamilton, em que há indivíduos com acesso ao que o governo reconhece serem milhões e milhões de registos  e gravações com os quais podiam sair a qualquer momento sem os referir, sem supervisão, sem auditoria, mesmo sem que o governo soubesse para onde iam.

Seipel : Por fim você chegou à Rússia. Numerosas comunidades da informação suspeitam que tenha passado um acordo, dando material classificado em contrapartida de um asilo aqui, na Rússia.


E. Snowden : O chefe da Task Force que estudou o meu caso, não mais tarde que em Dezembro, concluiu que não havia qualquer prova ou indício de que eu tivesse beneficiado de alguma ajuda ou de contactos exteriores, ou que tivesse concluído um acordo, fosse de que natureza fosse, para realizar a minha missão. Eu trabalhei sozinho. Não precisei de mais ninguém, não tenho ligações com governos estrangeiros, não sou um espião a soldo da Rússia ou da China ou de outro país neste assunto. Se sou um traidor, a quem é que eu traí? Entreguei toda a minha informação ao público americano, a jornalistas americanos que investigam sobre questões americanas. Se eles tomam isso por uma traição, penso que as pessoas se devem interrogar sobre aqueles para quem crêem trabalhar. O público é suposto ser o patrão deles, não o seu inimigo. Para além disso, no que respeita à minha segurança pessoal, eu nunca estarei totalmente em segurança antes que esses sistemas tenham mudado.


Seipel : Depois das suas revelações, nenhum país europeu lhe ofereceu realmente asilo. Onde é que pediu direito de asilo, na Europa?

E. Snowden: Não posso lembrar-me em detalhe da lista de países, pois foram numerosos, mas a França e a Alemanha, assim como o Reino Unido, faziam certamente parte dessa lista. Um número de países europeus, cuja totalidade infelizmente estimou que fazer o que é justo era menos importante que dar o seu apoio aos interesses políticos americanos.


Seipel : Uma reacção à espionagem da NSA neste momento é que países como a Alemanha reflectem à criação de internetes nacionais, com o fim de forçar as sociedades da Net a guardar os seus dados no seu próprio país. Será possível fazê-lo?

E. Snowden: Isso não parará a NSA. Digamo-lo deste modo: a NSA vai onde estiverem os dados. Se a NSA pode extrair mensagens das redes de comunicação na China, é provável que possa tirar mensagens facebook da Alemanha. No fim, a solução para este problema não é de todo meter as coisas entre quatro paredes. Embora isso aumente o nível de evolução e de complexidade necessárias à recuperação da informação, vale muito mais simplesmente assegurá-la de qualquer intrusão ao nível internacional, que jogar a “mudar os dados de lugar”. Movimentar os dados não resolve o problema. O problema está em torna-los seguros.


Seipel : Neste momento, Obama não parece muito preocupado pelas mensagens em fuga. E com a NSA eles estão muito mais preocupados em apanhar o mensageiro, neste contexto. Obama pediu várias vezes ao presidente russo para o extraditar. Mas Putin não o fez. Parece que, provavelmente, você teria que passar o resto da sua vida na Rússia. Como se sente na Rússia, neste contexto, e existe alguma solução para este problema?

E. Snowden: Penso que se torna cada vez mais evidente que tais fugas não provocaram danos, e que, de facto, elas serviram o interesse geral. Por essa razão, penso que será muito difícil manter uma espécie de campanha permanente de perseguição relativamente a alguém a quem o público reconhece que serve o interesse público.


Seipel : O New York Times escreveu um longo artigo e pediu que a clemência lhe seja acordada. O título é “Edward Snowden, denunciador”, e cito o artigo: “O público teve conhecimento, em detalhe, como a agência estendeu o seu mandato e abusou da sua autoridade.” E o New York Times conclui: “O Presidente Obama deveria pedir aos seus colaboradores que começassem a encontrar uma maneira de pôr fim à difamação do Sr. Snowden e de o incitar a voltar ao país.” Teve alguma chamada da Casa Branca no intervalo?



E. Snowden : Nunca recebi qualquer chamada da Casa Branca e não passo o meu tempo junto ao telefone. Mas acolherei de boa vontade a ocasião de falar sobre o modo de levar este assunto a uma conclusão que satisfaça os interesses de todas as partes implicadas. Penso que é claro que há momentos em que o que é legal é distinto do que é justo. Há essas épocas na História e não é preciso pensar muito para que um americano ou um alemão encontrem na História do seu país épocas em que a lei permitia ao governo de realizar coisas que não eram justas.


Seipel : Neste momento o Presidente Obama não parece, pelas evidências, estar convencido disso, já que ele disse que você era acusado de três crimes, e cito-o: “se você, Edward Snowden, acredita naquilo que fez, por que é que não regressa à América para comparecer no tribunal com um advogado e defender a sua causa?” Será essa a solução?


E. Snowden : É interessante, porque ele mencionou três crimes. O que ele não diz, é que os crimes de que ele me acusa são crimes que não permitem defender-me perante a justiça.  Não  autorizam que me defenda perante um tribunal público e convença um júri que o que fiz foi no seu interesse. A lei sobre a espionagem, que data de 1918, nunca permitiu  perseguir as fontes dos jornalistas, as pessoas que dão aos jornais informações de interesse público. Essa lei diz respeito às pessoas que vendem em segredo documentos a governos estrangeiros que bombardeiam pontes e fazem sabotagem das comunicações, não às pessoas que agem pelo interesse geral. Por isso diria ser revelador de que o presidente escolheria dizer que cada um deve encarar a música somente quando sabe que essa música, (especialmente num Estado totalitário), é o espectáculo  dum julgamento  público de um criminoso político, conduzido principalmente para fins propagandisticos, a fim de suprimir ainda mais a dissidência que haja contra o governo, condenando o réu a uma sentença tão gravosa que torna o acusado num exemplo a ser temido pela nação.


Tradutora: Maria Alpinda 
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